S. Martinho, Dionísio e a Matança

O ritual do dia 11 de Novembro, preenchido pela “Festa de S. Martinho”, é composto por vários elementos, sendo preferível, para um seu melhor entendimento, proceder a uma leitura de conjunto, em alternativa à sua segmentação.


Pip Wilson, S. Martinho de Tours repartindo o manto com um pobre
A simbologia atribuída ao santo deixa perceber laivos do sentido anterior. S. Martinho, nascido na Hungria em 316, era conhecido como o Santo exorcista, por então se crer que tinha o poder de afastar os demónios. Celebrado a 11 de Novembro (dia da sua morte), esta data terá sido escolhida não por se incorporar naturalmente no tempo dedicado ao Culto dos Mortos, que tem início a 1 de Novembro, mas porque o santo lidava com eles (expulsando os demónios) e terá sido por essa qualidade que mais se distinguiu.


Mas anteriormente a ele, a evocação desta data dizia respeito a Dionísio. A simbologia de S. Martinho passou então a fundir-se com a de Dionísio (em Roma – Baco), deus Grego da Ressurreição, simbolizado pelo vinho e igualmente festejado nesta altura, dada a coincidência com a abertura e prova do vinho novo (data de destaque no mundo antigo). O vinho, elemento considerado essencial para a obtenção do estado de espírito próprio para a comunicação com os mortos, possuía um estatuto elevado.


Cenas e símbolos de Dionísio em cerâmicas Gregas
A integração destas duas personagens numa mesma celebração tem a ver, portanto, com a natureza do Culto dos Mortos, que descreve Dionísio/ Baco, como deus da ressurreição (imitando as uvas, que morrem e se transformam em vinho).


Dionísio em transmutação
Fresco de Pompeia, Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, Nápoles, Italia

Dionísio aparece simbolizado no vinho devido não só ao facto de a ingestão deste, (e respectivas consequências derivadas das suas propriedades) propiciarem a evocação dos espíritos dos mortos, através da criação de estados alterados de consciência considerados essenciais neste ritual, mas também devido à sua própria história (Dionísio é ressuscitado dos mortos) na qual surge como garantia da existência de uma vida eterna da alma ou espírito.


Dionísio embriagado
Mosaico, colecção do Museu de Antakya, Turquia IV séc. dC

A valorização do vinho (devendo-se também a outros factores) enquadra-se neste propósito. Dizia-se que, conforme a quantidade de vinho ingerida pelos participantes no ritual, o seu estado de embriaguês acabaria por revelar os atributos do próprio Dionísio/Baco, e quem mais se parecesse com ele mais próximo estaria da divindade. Com essa finalidade, bebiam-se propositadamente grandes quantidades e havia mesmo concursos para a eleição do rei dos bêbados.


Visto pelo lado prático, as propriedades químicas do álcool permitem, na realidade, a obtenção de um estado de consciência propício ao pretendido. Ao atingir o estado de integração simbólica, indispensável nos rituais festivos de inversão, facilitando não só ensaiar mas também domesticar situações disruptivas e desorientadoras, como pode ser a da morte, esta bebida ritual manteve-se ao longo dos tempos, sendo ainda (inconscientemente) caracterizada da mesma forma.


O terceiro elemento do conjunto de rituais deste tempo, a matança de um pequeno porco, e respectiva refeição comensal, usufrui de direito próprio, por ser o porco um animal funerário preferencial, totémico para os Celtas e muito representado pelos Gregos em rituais fúnebres, ou mesmo, como nos “Mistérios Eleusianos”, em diferentes situações remotamente ligadas ao culto dos mortos.


Demeter nos Mistérios Eleusianos e o sacrifício de um porco
No S. Martinho, um pouco por toda a Europa, comia-se porco ou pato, qualquer um destes animais entendido como a encarnação do próprio deus (Dionísio/ Baco), ou do Espírito da Vegetação, com a finalidade de entrar em contacto com este. Castanhas e outros alimentos rituais faziam também parte obrigatória da ementa.


A matança de um pequeno porco e a reunião numa festa comensal, de amigos e parentes, é ainda habitual no meio rural dos Açores, quer no dia 11 de Novembro, quer em data próxima desta.


Do mesmo modo, é costume beber grandes porções de vinho e ficar-se um pouco embriagado (em implícita homenagem a Dionísio). Mas a matança do porco na proximidade desta data continua a ter lugar nos Açores, aparentemente como resquício do antigo ritual, igualmente acompanhada de uma refeição comensal, reunindo a família e amigos. Outros indícios parecem autorizar a ligação ao ritual arcaico: as “brincadeiras” com o rabo do porco (elemento simbólico do animal) e com a bexiga, que no passado, era entregue às crianças e/ou aos loucos, para facilitar o estabelecimento da ligação com os mortos.

Por outro lado, embora o ritual de S. Martinho seja essencialmente masculino, em França, na Provence e no Languedoc (assim como nos Açores), as mulheres velhas tinham autorização de beber, participando numa espécie de patuscada licenciosa, dirigindo-se-lhes cantares indecorosos.