Senhoras do Equinócio de Outono

Um conjunto de celebrações, tendo lugar entre a primeira e a segunda semanas de Setembro, enquadram-se no “espírito” que preside ao Equinócio de Outono.
Uma forte marca sazonal, inspirada por esta época do ano, está profundamente impressa nas práticas rituais europeias, especialmente nas comunidades ligadas à agricultura.
A associação entre o período do fim das colheitas, a meio de Setembro, e o contacto com o mundo subterrâneo, ctónico ou então vulcânico, anunciador da morte, responde a um arquétipo poderoso do género humano, no qual se enaltece a figura feminina.


Deméter e Perséfona e Cibele, conjunto matricial do culto às Senhoras do Outono
O culto a Deméter, grande deusa da Terra e da agricultura, e a Perséfona, como deusa da renovação da vegetação têm eco em toda a região de influência Indo-Europeia, por vezes tomando outras denominações, como é o caso da deusa Cibele. De origem Frigia, em algumas regiões é personificada por Perséfona, tendo passado para o Panteon Romano em 204 a.C., com um culto reconhecido oficialmente. Dele constava o taurobolium, sacrifício de um touro cujo sangue é utilizado para o baptismo dos neófitos e purificação ou fertilização da terra (neste ponto, idêntico ao do culto de Mitra). Por vestígios encontrados pela Arqueologia Portuguesa, sabe-se da instalação do culto a Cibele na Lusitânia, "...com os seus nomes técnicos de origem Grega e Greco-Oriental...", como nos diz Leite de Vasconcelos (Religiões da Lusitânia, 1989). Na Ibéria, o culto a Perséfona, ou Prosérpina (que se confunde, na essência, com o culto a Deméter) é identificado mais regularmente com Atégina, uma deusa local, à qual são erguidos muitos templos e monumentos.


Culto a Mitras, com o sacrifício de um touro, Museu Nacional de Arqueologia, Portugal
Leite de Vasconcelos cita também várias referências feitas por Santo Agostinho a este culto e deusa.


Cabeça da estátua da deusa Cibele, Museu Nacional de Arqueologia, Portugal
"Á semelhança de muitas outras divindades antigas, Atégina-Prosérpina era também deusa médica: sincretismo do povo, que tem necessidade de recorrer por qualquer modo às entidades sobrenaturais, aplicando a umas o que originariamente pertencia a outras! A inscrição 13.a chama por isso à deusa: servatrix 'conservadora da saúde dos homens', e nela se diz que a esposa do dedicante, tendo estado enferma, foi restituída com saúde ao marido..." (Vol.II, p.168).
Por outro lado, Atégina (que etimologicamente significa re-nascida) era também conhecida como deusa infernal (resultante da sua descida ao Hades), sendo-lhe dirigidos pedidos de vingança e maldição (devotio).
Irmã de Dionísio, o culto dos dois aparece muitas vezes ligado, com libações (de vinho e/ou leite), sacrifícios e/ou ofertas, touradas (pegas de touro para ser abatido/sacrificado) fazendo parte do culto, mas mantendo sempre presente a ligação ao mundo dos mortos. Montes, Grutas e Lapinhas ou furnas são, neste contexto, utilizados como locais do culto, por serem igualmente considerados monumentos fúnebres.

Integradas neste espírito, surgem na Ilha Terceira, durante as duas primeiras semanas de Setembro, devoções a várias “Senhoras” nas quais estão reunidos sinais indicadores desta mística remota: Nossa Senhora Da Lapinha, na Vinha Brava, N. Sa. dos Milagres, na Serreta, N. Sa. da Penha de França, no Pico da Urze, N. Sa. de Lurdes, nos Altares, N. Sa. Da Esperança, na Serretinha e N. Sa. Dos Milagres, em Santa Luzia da Praia.

Qualquer delas reúne elementos ancestrais, coincidentes com os dos “Mistérios Eleusianos” que se realizam na Grécia desde há pelo menos 5.000 anos. A persistência da ligação a esse passado deverá dever-se ao facto de este ser entendido como um marco das primeiras concepções da imortalidade da alma, que serviu como fonte espiritual a muitas religiões, o que fez com que Eleusis tivesse sido visitada por vários Papas, na antiguidade, extravasando para o espaço Cristão alguns dos seus ideais, com especial incidência na Península Ibérica, e no culto à deusa Atégina. Deste passado mítico podem ser encontradas nos Açores várias celebrações aqui designadas como as “Senhoras do Equinócio de Outono”, baseadas em reminiscências que se distribuem na Ilha Terceira (alternadamente), do seguinte modo:
A Montanha (considerada como local sagrado)
A Gruta/Lapinha (monumento fúnebre)
O Bodo de Leite (libações) e Tourada (taurobólio)
A Pernoita (incubatio)
A Cera (Deméter= abelha)

a) Nossa Senhora Da Lapinha, na Vinha Brava/Nasce Água, é celebrada na mesma data da de Eleusis, numa pequena Ermida isolada, erigida no alto de uma elevação, onde as pessoas só vão nestes dias. Da sua Festa constam Bodo de Leite e Tourada.


Ermida de N. Sra. Da Lapinha, Nasce Água
b) Nossa Senhora dos Milagres, na Serreta, na mesma data, motiva uma grande peregrinação, realizada em vários dias, por diferentes pessoas, notando-se gente pelas estradas, de mochila às costas, durante cerca de uma semana. Era hábito pernoitar na Igreja (incubatio, ou comunicação com os mortos, em sonhos). Na sua Festa entram Bodo de Leite e Tourada.


c) Nossa Senhora da Penha de França, no Pico da Urze, é também celebrada numa pequena Ermida isolada, erigida no alto de uma elevação, onde as pessoas só vão neste dia. Também há Bodo de Leite e Tourada.


N.Sra. da Penha de França, Pico da Urze
d) Nossa Senhora de Lurdes, nos Altares (originalmente cultuada numa gruta, em França), inclui uma procissão pelos campos, em direcção a um pequeno altar erigido no sopé de uma elevação. Da Festa constam várias Touradas.

e) Nossa Senhora da Esperança, na Serretinha, celebra-se numa pequena Ermida isolada do restante povoado, à beira-mar, com procissão no mesmo dia da Senhora dos Milagres na Serreta (e de Eleusis), mas prolongando-se a Festa pela semana seguinte, ao fim da qual é realizada uma Tourada.


N.Sra. Da Esperança, Serretinha
f) Nossa Senhora Dos Milagres, em Santa Luzia da Praia, cuja data de celebração foi durante muito tempo em Dezembro, é alterada para esta altura (a mesma data de Eleusis), não se sabe bem porquê ou por quem.


N.Sra. dos Remédios, casa, entrada para a gruta e Ermida. Santa Luzia da Praia
A esta Festa associa-se ainda uma antiquíssima devoção à Senhora dos Remédios, numa Ermida construída sobre uma gruta, onde também se pernoitava. O acto de dormir ou pernoitar nos templos ou mesmo nas grutas, a “incubatio”, fazia parte de uma estratégia para, através dos sonhos, se conseguir indicações dos mortos para solução de algum problema e constava da devoção aos deuses médicos (como era Atégina) ou da Terra. Na gruta, por baixo da Ermida da Senhora dos Remédios (Santa Luzia da Praia), ou na própria Ermida (onde estão sepultados os antigos donos), a pernoita era tão usual que até existiam pias em pedra (diz-se que para os fiéis lavarem as roupas, mas que seriam, presumivelmente, para se purificarem antes do culto, como era obrigatório). Este conjunto de celebrações é comum ainda em várias ilhas dos Açores. Nelas se incluem festas, devoções e outras práticas que, num passado remoto, eram consideradas religiosas (como, por exemplo, a tourada, que precedia o taurobólio). Pelos traços específicos revela particularidades que autorizam a sua classificação dentro do quadro (místico e equinocial) do Outono.