Maios

É usual na Ilha Terceira, no 1º de Maio, construírem-se bonecos, os “Maios”, executados às escondidas, de madrugada, com roupas dos donos da casa e imitando-os, colocando-os depois ostensivamente nas varandas e janelas, a jeito de vivos, em posições vigilantes. A sua função parece ser a de afugentar os maus espíritos.


Durante todo o Inverno e até 1 de Maio os camponeses do passado viviam sob a permanente ameaça dos “maus espíritos”.


Acreditava-se que durante o Tempo dos Mortos (que tem início a 1 de Novembro), os espíritos destes saíam das sepulturas e ocupavam a Terra, causando variados males. Alguns permaneciam até serem expulsos pelo Espírito da Vegetação, na entrada da Primavera, ou então até à chegada do tempo mágico de Verão, que para os Celtas, tinha início a 1 de Maio.


Para que se cumprisse a expulsão total dos maus espíritos, era necessária a realização de vários rituais de esconjuro. A noite de 30 de Abril para 1 de Maio, conhecida como a “noite das Valpurgis”, na demonologia Germânica, ou “noite das bruxas”, funcionava como a última barreira entre os dois tempos, aquela onde deveriam ter lugar os actos de esconjuro dos maus espíritos, dos quais restam muitos hábitos em terras portuguesas.


Tratava-se de benzer e proteger os animais, a casa e as pessoas com plantas protectoras (como a giesta, ou a madressilva, por exemplo), que também se colocava nas frestas das portas e janelas.


Acreditando que os espíritos tentarão refugiar-se em qualquer ser vivo mais fraco, que não lhes ofereça resistência, assim como nos animais domésticos, os donos da casa afadigavam-se a protegê-los.

“Quem dormir até mais tarde pode apanhar quebranto”, diz-se ainda aos preguiçosos, tentando livrá-los do mau olhado ou mesmo da posse por parte de um mau espírito. Isso significaria, para os desacautelados, que o espírito permaneceria naquela pessoa ou animal, durante todo o Verão, até à sua época de liberdade sobre a Terra (o Inverno, ou tempo dos Mortos), debilitando-o, o que até o poderia levar à morte.
Contra esta situação de perigo eram utilizadas várias estratégias. Uma delas é a construção dos Maios.


À volta destes bonecos são dispostos alimentos rituais, como sejam as “papas grossas”, de milho mal moído, “estraçoado” e/ou bebidas espirituosas, conhecidos como possuindo o poder do esconjuro, manjares que devem ser oferecidas aos amigos “para o Maio não entrar”. Outros artefactos que ilusoriamente completassem o cenário de vida, eram e são distribuídos à volta dos bonecos.


Em Portugal continental são as “Maias” que marcam esta data: ramos de giestas colocados em frestas de portas, janelas, ou a enfeitar os animais, e que procuram assim impedir a entrada do “Maio”, isto é: do demónio, o “carrapato”, ou o “burro”. Segundo Ernesto Veiga de Oliveira (1984, p.102) apenas na Beira Baixa, em Segura e no Rosmaninhal é possível encontrar os mesmos bonecos da Ilha Terceira. Mas a manducação de manjares cerimoniais, embora muito diversos dos da Ilha terceira, tem igualmente carácter obrigatório, sendo a primeira coisa que se come de manhã muito cedo, “para atacar o Maio”. Segundo este autor, os costumes atrás referidos, provenientes de uma mitologia generalizada pela Europa e relacionada com os cultos agrários, de purificação da Terra para a época fértil que se aproxima, foram considerados por D. João I como idólatras e diabólicos. Esta restrição poderá explicar o seu gradual desaparecimento, em diversas áreas do País.