Mistérios Eulesianos

Enquadrada no propósito de recuperação dos sentidos originais das Festas Tradicionais, a proposta de uma reflexão sobre as “Senhoras do Equinócio de Outono” pretende chamar a atenção para uma hipótese de ligação a um passado muito longínquo, tanto em termos de tempo como de espaço. Permite conjecturar uma possível linha de continuidade com um evento multimilenar que tem lugar na Grécia : Os Mistérios Eleusianos.

Embora nunca revelados em toda a sua extensão, são os rituais que mais marcaram as sociedades da antiguidade. Ainda têm lugar nesta fase do ano (Outono), na segunda semana de Setembro, embora a sua origem possa ser traçada até mais de cinco mil anos atrás. Na velha Grécia, os Mistérios foram referidos pelos seus poetas e filósofos mais famosos, apresentando-se como um marco mitológico de longo espectro. Isto porque os rituais conhecidos como ‘Mistérios Eleusianos’, são a expressão visual de uma importante fase na evolução espiritual do homem: a da aquisição do conceito de imortalidade.

Passou a acreditar-se, a partir dessa altura, que a imortalidade da alma poderia tornar-se acessível ao mortal comum (e não apenas aos chefes, líderes, sacerdotes), através da prática destes Mistérios.

Inspirados pelo mito de Deméter, uma figura poderosa do panteão grego, símbolo da Mãe Terra, deusa dos cereais, agricultura e leis civis, os Mistérios Eleusianos facilitam um novo posicionamento humano, através do exemplo do relacionamento que Deméter e Perséfona, sua filha, estabelecem com a morte.


Deméter e Perséfona, baixo relevo Grego
A lenda é contada num dos primeiros hinos de Homero, mas também por Píndaro, Pausanias, Orfeu e Estrabão, entre outros autores clássicos.
Inspirada no mito, relata como Perséfona, filha de Deméter é raptada por Plutão, deus dos Hades, do vulcão e do mundo subterrâneo (engolida pela Terra num abalo sísmico).

O sofrimento inconsolável da mãe (Deméter) causa, pelo seu abandono do Olimpo e o seu vaguear pela Terra, o descuido das atribuições que lhe são devidas. Longe do seu poder revitalizante, desaparece a vida da vegetação, secam as fontes e os rios e a fome instala-se na Terra.

Disfarçada de velha pedinte, Deméter encontra refúgio junto de uma família em Eleusis, pequena povoação a cerca de vinte quilómetros a noroeste de Atenas.

Passa os dias junto de um poço, penitenciando-se. A população compadece-se e acolhe-a. Por fim, Deméter dirige-se a Zeus, suplicando-lhe a entrega da filha, utilizando para tal rituais mágicos, de prece e sacrifício.


Recinto do templo de Deméter, vendo-se em primeiro plano o poço
Zeus ouve-a e convence Plutão a ceder Perséfona por períodos de tempo alternados, durante o ano.
O mito explica como Deméter torna possível o retorno à vida na Terra, e como Perséfona é salva, após a sua descida aos infernos. Evidencia o poder obtido por Deméter através do sofrimento e da purificação, nos rituais de preces ao Olimpo, o que lhe faculta o retorno de Perséfona.

Deméter transmitindo os segredos da agricultura a um habitante de Eleusis
A leitura mítica do Outono, com a simbologia proposta em Eleusis, permitiu ao homem de então uma abordagem da morte, na qual a esperança numa vida futura, anteriormente impossível, faz a sua aparição. O fantasma irredutível da morte é afastado face ao significado que as provações e sacrifícios trazem, como possibilidade de ressurreição.

A purificação (através dos rituais), torna-se um meio de acesso a uma vida da alma, posterior à morte. A esperança que esta nova crença trouxe à humanidade manifestou-se como um novo elemento, a ser integrado na conceptualização da natureza humana.
Anteriormente à realização dos Mistérios Eleusianos, este conceito era inexistente.

O mito conquista desse modo a adesão da população de Eleusis, que passa a celebrar os rituais anualmente.
Qualquer pessoa podia neles participar, desde que falasse Grego e não tivesse manchado as mãos de sangue. Mesmo assim, podia ser purificada por um outro ritual. Inscrevendo-se como mystes, era-lhe destinado um guia que o instruía nos mistérios.


Eleusis e ruínas do Templo de Deméter
As cerimónias ganharam grande fama, recebendo gente de toda a Grécia e muitos estrangeiros. Mais tarde, vários Papas. Os rituais, porém, continuaram a ser presididos por um corpo local de Hierofante e Altos Sacerdotes, realizando-se no Templo a Deméter, entretanto construído por Celeus, em casa de quem a deusa, ao tomar a forma humana, se abrigou.


Ruínas do local do poço
A peregrinação ganha gradualmente adeptos, conquistados pela promessa da antevisão de uma vida após a morte. Os praticantes (que não revelavam nunca o que se passava nas cerimónias rituais) confessavam ficarem possuídos por uma grande felicidade e tranquilidade. Cerca de cinco milénios após o início destes rituais, apercebemo-nos do seu carácter universal e intemporal pela forma como são vistos na actualidade. Transferidos para toda a Europa, tomam diferentes formas nas várias adaptações conhecidas. A forte marca sazonal, inspirada por esta época do ano (Outono), está profundamente impressa nas práticas rituais europeias, especialmente nas comunidades ligadas à agricultura.
A associação entre o período do fim das colheitas, a meio de Setembro, e o contacto com o mundo subterrâneo, ctónico ou então vulcânico, invocador da morte, responde a um arquétipo poderoso do género humano.

O culto a Deméter, grande deusa da Terra, e a Perséfona, como deusa da renovação da vegetação têm eco em toda a região de influência Indo-Europeia, por vezes tomando outras denominações.
Na ligação dos cultos Ibéricos e Lusitanos aos Orientais e Romanos subsistem por vezes elementos de menor importância, quando se perdem outros nucleares. Assim deve ter acontecido com a Celtização de Deméter e Perséfona e as respectivas adaptações. Posteriormente, a Cristianização dos mesmos cultos obrigou a outros ajustes.
A peregrinação a Eleusis interrompeu-se durante um longo período. A cidade de Eleusis está actualmente integrada numa área industrial, inóspita. O recinto das cerimónias a Deméter está em ruínas, embora seja visitado permanentemente por estudiosos. Porém, em 1990 reinicia-se o hábito da peregrinação, desta vez a partir da Califórnia. A sua intenção é a de procurar cura para estados de ansiedade e medo perante a morte.
Na restante Europa, vestígios do culto são constantemente retomados, devido ao seu carácter arquetipal e universal, sobrevivendo no inconsciente colectivo das populações, principalmente das zonas rurais. Deste modo, e através da Cristianização a que foram submetidos, rituais semelhantes, cuja motivação parece inexplicável, mas que se assemelham a estes, são retomados.

Na Ilha Terceira, na mesma data paradigmática (a meio de Setembro), realizam-se pelo menos seis eventos que deixam suspeitar uma origem milenar, devido não só à coincidência da data, mas também à natureza do culto.
Na Serreta, onde o culto teve como origem quer convulsões vulcânicas (Plutão), quer a fé de um eremita (que escolheu precisamente um promontório ao pé do mar, precisamente a cerca de 20km de distância da cidade principal, e precisamente na direcção Noroeste, ou do Sol poente, onde se crê que os mortos desaparecem … tudo precisamente como na Grécia) são feitas ofertas de géneros alimentícios e cera a uma Senhora dos Milagres ("conservadora da saúde dos homens"?) que pode bem ser a Cristianização de Atégina.
A noite é passada em vigília, na Igreja (que em Eleusis acaba com a cerimónia do 'renascimento'). Existe também aqui, tal como em Eleusis, uma ligação a Dionísio (Baco, deus do vinho), o que parece despropositado numa peregrinação (e não será comum nos Açores), mas que neste caso é aceite sem reservas.
Como é relatado em Eleusis, há frequentes paragens, ao longo do percurso, para comer e beber, tendo as libações aí a finalidade de aproximar o contacto com a divindade, pela sugestão de transe que podem induzir.


Dionísio, cópia romana do original grego, sec IV aC
Os rituais Báquicos foram unidos aos Mistérios Eleusianos posteriormente à sua iniciação. A ingestão de uma bebida (Kykeon) oferecida aos iniciados passou a constar do elaborado vocabulário do ritual, que contava também com a oferta sacrificial de pequenos leitões (o porco é o animal simbólico deste mito).


Deméter (também personificada em Artémis) com cereais e outros frutos
A oferta de cera (importante característica desta peregrinação) representa também a ligação a um simbolismo de Deméter. Nas Religiões Gregas, a abelha era por vezes identificada com Deméter, deusa da Terra e das colheitas, representando a alma enviada aos infernos.

Para além da Festa de Nossa Senhora dos Milagres na Serreta, celebram-se na Terceira, no mesmo dia, várias outras 'Festas' relacionadas com 'Grutas' ou 'Lapinhas', que como se sabe, eram considerados lugares sagrados dos mortos, onde se supunha que eles se abrigavam, sob a forma de morcegos (que sempre se encontram nesses lugares).

Na Festa da Senhora da Lapinha, que tem lugar na Nasce Água, consta ainda um bodo de leite (refeição partilhada, comum neste ritual, onde se faziam libações de leite) e tourada. São assim congregados vários dos elementos principais do culto de Cibele /Atigénia / Perséfona /Deméter (Cibele era cultuada através da morte de um touro - taurobolium).
Igualmente no mesmo dia, tem lugar na Praia a Festa da Senhora dos Milagres, em Santa Luzia, cuja data de celebração, que deveria ser em Dezembro, foi alterada para esta altura (não se sabe bem porquê ou por quem).
A esta Festa associa-se ainda uma antiquíssima devoção à Senhora dos Remédios, numa Ermida construída sobre uma gruta, onde também se pernoitava.
O acto de dormir ou pernoitar nos templos ou mesmo nas grutas, a incubatio, fazia parte de uma estratégia para, através dos sonhos, se descobrir solução para algum problema e constava da devoção aos deuses médicos ou da Terra. Na gruta, por baixo da Ermida da Senhora dos Remédios (Santa Luzia da Praia), ou na própria Ermida, onde estão sepultados os antigos donos, a pernoita era usual. Aí existem também pias em pedra para os fiéis lavarem as roupas (ou purificarem-se?).

De novo são conjugados elementos comuns: a data (mesma dos Mistérios Eleusianos), a 'gruta' (casa dos mortos), a devoção a uma Senhora (dos Milagres ou dos Remédios) e a dormida no local.


Cibele/Reha romanizada, séc. II aC , e reprodução portuguesa, encontrada em Mértola
A este conjunto junta-se ainda outro elemento: a montanha. Cibele era também chamada a “deusa da montanha”, designação que se enquadra numa crença generalizada dos montes como lugares sagrados e por essa razão, lugares de erecção de templos. A vocação de congregar os fiéis no templo levou a que os templos Cristãos passassem a ser construídos nos centros dos povoados, mas os templos de devoção a estas “Senhoras do Outono” encontram-se de preferência no cimo de elevações, ou “penhas” (Senhora da Penha de França, Senhora da Lapinha, na Nasce Água e várias outras em diferente ilhas).
O conjunto destes elementos, pelas características apontadas, e por se manifestarem contra a corrente comum do cristianismo, apresenta um forte argumento a favor da sua origem ter antecedentes ligados aos Mistérios Eleusianos, ou aos cultos deles derivados, que se sabe terem existido em Portugal continental.


Estela portuguesa referente à deusa Atégina
O grande mito Grego que retracta a morte e ressurreição, na metáfora de Perséfona, enquadra-se na concepção oriental generalizada, da necessidade da morte anual de uma divindade ligada à vegetação, como medida preventiva, para que esta renasça na Primavera seguinte. Era comummente aceite a ideia de que rituais semelhantes, praticados tanto na Primavera (sementeiras) como no Outono (colheitas), contribuíam para o crescimento e fortalecimento dos cereais e outras plantas. Substitutos dos deuses, simbolizados na forma de animais ou de alimentos representativos, eram ingeridos em refeições cerimoniais, propiciatórias desta fertilidade. Por outro lado, estes rituais têm o poder de reconciliar o homem com a morte, enfatizando a possibilidade da existência de vida após a morte. A sua prática no Outono é profundamente simbólica dessa preocupação ancestral e intrinsecamente humana.

Estas notas têm por finalidade chamar a atenção para o que de universal persiste muitas vezes nas sub-culturas (na Açoriana, como noutras).


Setembro de 2003
Antonieta Costa