Cantar às Estrelas

O ritual dos “cantares às Estrelas”, comum na zona Norte da Ilha de S. Miguel, Açores, deverá fazer parte de um imaginário remoto, tanto em termos temporais quanto geográficos, um pouco transversal à prática Cristã, embora não considerado como pagão. É mais uma das tradições açorianas cujas raízes mergulham num passado ambíguo, que permanece desconhecido por razões várias, entre as quais avulta certamente a do conflito com a religião estabelecida.
Uma destas razões dirá respeito à entidade a quem são dirigidas as evocações dos cantares, a Senhora do Céu, das Estrelas em particular, desafiando assim a proibição expressa no Antigo Testamento: Deuterenómio (c.IV-v.19) “… Nem eleveis os olhos para o céu e, vendo o sol, a lua e as estrelas e todo o exército dos céus, não te sintais impelido a prostrar-te diante deles e a prestar culto a tais coisas…” que proibia a referência a astros (Sol, Lua, Estrelas, etc.) como expressão de louvores, ou preces de qualquer tipo.


Nut, mãe de Isis, representada como o céu coberto de estrelas (Google)
A outra razão entendida como legítima para manter indefinido este passado, diz respeito à própria “Senhora da Estrela”, uma evocação da Virgem, com Igreja própria, sita na Ribeira Grande, S. Miguel, sem aparente ligação à figura feminina, arquetipal, da criação do mundo, também chamada “Senhora da Estrela”, Astarte, Isis.


Astarte/Isis Deusa da fertilidade e maternidade, arquétipo feminino da criação
A proibição Bíblica de referenciar os astros poderá justificar-se pela viragem ocorrida no pensamento religioso Hebraico que, ao estruturar hierarquicamente o seu culto, passa a atribuir preponderância à figura masculina, evoluindo até ao ponto de apagar totalmente a contraparte feminina das suas menções.
Anteriormente a esta orientação, porém, durante a Idade do Bronze em algumas áreas do Médio Oriente, o culto a Astarte, deusa do Céu e das Estrelas, sobressaía sobre o culto de Yahweh, embora coexistindo com ele. Uma facção Israelita desse tempo entendia Astarte como consorte de Yahweh. O Rei Salomão, por exemplo, prestava culto a Astarte. Moedas do tempo retratam a deusa (sob a representação de pomba celestial da sabedoria) como divindade oficial, situação que prevalece até à instauração do monoteísmo patriarcal, ou de estrutura masculina, do Judaísmo rabínico.


Isis como, ave feminina da ressurreição (Fénix)
Mesmo após esta alteração, a influência da deusa mantém-se no Judaísmo Helenista, representada como Sophia (sabedoria), a parte feminina de Yahweh. A pomba que, na narração das Sagradas Escrituras, desce sobre Cristo no seu baptismo, filia-se neste simbolismo. A iconografia Cristã preserva a forma de uma pomba rodeada de sete raios de fogo, como uma das suas mais arcaicas representações.

Astarte, como deusa cósmica dos Mistérios sobrevive ainda durante muito tempo nas religiões Gregas que desafiam a dominância da redenção masculina, proposta pelo Hebraísmo, à qual por fim acabam por se render. É Astarte que, no Egipto (Isis) e na Síria desempenha um papel mítico, de uma Virgem, “Senhora do Céu”, mãe do Menino Sol, cujo nascimento a 25 de Dezembro, simboliza a altura em que este astro desce mais baixo no horizonte.


Comparação entre as duas figurações da maternidade


Astarte/Isis amamentando o menino deus Horus
(Estátuas do Museu do Cairo e do Museu do Louvre, respectivamente)

No Museu do Cairo está representada numa estátua do VI século a.C., com um menino ao colo, na sua personificação de Isis (conforme a legenda). Esta simbologia é depois retomada pelo Natal Cristão.
Mas a história de Astarte (na representação mítica da Grande Deusa) recua até à Suméria, onde também era identificada com Inanna (Grande Senhora de An – o Céu), mais tarde denominada Ishtar, com a chegada de povos Semitas, os Akadianos, a esta área. Astarte assimilada a Isis, torna-se divindade suprema em várias regiões, especialmente no Egipto.


Isis, vista como companheira de Osíris, cuja alma se fixou na estrela Sah
A Estrela com a qual a relacionam provém da adopção do Planeta Vénus como símbolo. Quer como Estrela da Alva, quer como Estrela da Tarde, Vénus (Planeta, entendido como Estrela) mantém-se ligado à simbologia de Astarte, acrescentando-lhe o atributo do amor (o que resultou, no Ocidente, expresso nas figurações de Vénus e de Afrodite).
O Culto Sumério e Babilónico de Astarte compreendia hinos, inscrições votivas, épicos e anais históricos, nos quais a deusa era percebida como força da vida, ou Elan Vital. Em monumentos, selos e moedas, Astarte/Ishtar/Isis aparece frequentemente com uma coroa na cabeça e uma Estrela de oito raios ao lado, por vezes nua e/ou segurando uma criança.
O seu culto espalhou-se por Beirute, Sidon, Byblos, mas também pelo Ocidente, Sicília, Malta, Etrúria, Roma (Vénus Erycina), Granada/Espanha e Portugal, onde se encontram documentos da devoção à deusa.
Aqui (Portugal), o culto terá florescido durante o século II (embora possa ser anterior) segundo Leite de Vasconcelos, em Religiões da Lusitânia, “… desde o Algarve até Trás-os Montes, desde Alcácer-do Sal até Mérida…” documentado por vestígios arqueológicos (depositados quer no Museu Nacional de Etnologia, quer no de Arqueologia).


Isis, Museu Nacional de Arqueologia
A inscrição da lápide de Bracara (Braga), proveniente de uma sacerdotisa do convento bracarense do século II (o convento Bracaraugustano) é dedicada à augusta Isis, que também, noutros casos é denominada domina (senhora), epíteto só atribuído às grandes divindades, segundo Leite de Vasconcelos. Do mesmo modo, o objecto de barro do Museu Nacional de Arqueologia, representando a cabeça da deusa (executada em duas metades, depois coladas), toucada de folhas de hera e com um dos seus mais usuais emblemas: dois cornos de vaca rodeando o globo solar, apresenta mais um comprovativo do culto que lhe era prestado em Portugal. “O culto isiaco era notável por suas procissões, ou pompae, muito semelhantes às catholicas: Apuleio descreve com todo o colorido romântico de Africano uma d’estas festas, a qual terminou pelo lançamento do navigium Isidis ao mar, para bom agouro dos navegantes.” (Leite de Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, Vol.III, p.350).


Isis Romana, segundo Leite de Vasconcelos, Museu Nacional de Arqueologia
No mesmo Museu encontra-se uma lucerna onde a deusa é representada com outro dos seus símbolos tradicionais: o crescente lunar.


Museu Nacional de Arqueologia
Este último símbolo aparece em imagens da Virgem Maria, quer como Senhora da Estrela, quer como Senhora da Conceição, estabelecendo a linha de parentesco figurativo, que aliás se concretiza também numa equivalência temporal, pelo significado da data das festividades.


Museu Nacional de Arqueologia
É visto por esta perspectiva que o ritual dos “cantares às estrelas” de S. Miguel se poderá enquadrar na categoria de cerimónias funerárias, do Culto dos Mortos. Não só por acontecer durante o período consagrado a este culto ancestral, mas por se inserir nas crenças mais antigas que descreviam serem os mortos heroizados transformados em astros, estrelas, ou em espíritos luminosos, aos quais se dirigiam orações. Astrum Cesaris foi descrito por Virgílio como a alma de César metamorfoseada em astro. Camões, nos Lusíadas (X, 56) diz: “Mas depois que as estrelas o chamaram…”
Foi crença destes povos (em certas épocas) que a cremação dos cadáveres seria um processo mais rápido de libertação das suas almas, quer para a descida destas ao centro da terra (de onde regressavam, regularmente, em certos dias, e irregularmente, por evocação mágica), quer para a sua subida até às estrelas e correspondente transmutação.
Astarte/Isis, Senhora do Céu e das estrelas, para onde era entendido que as almas dos mortos transmigravam, foi sempre considerada como sua protectora por excelência.
Parece ser influenciado por esta tradição que se desenvolve o actual Culto à Senhora das Estrelas, em S. Miguel.


Antonieta Costa, 2005