O Culto do Espírito Santo nos Açores

O Culto ao Espírito Santo e o entusiasmo com que os Açorianos o celebram destaca-se como uma marca de identidade do Arquipélago. Neste sentido, deixa no ar a questão das suas origens e da razão de ser da sua prática actual.


Embora a documentação histórica seja escassa, a existente parece indicar que as condições de vida nos Açores, durante a primeira fase do povoamento, facilitaram a instalação do Culto pelos frades franciscanos que, durante o primeiro século tiveram também a responsabilidade com a educação escolar das populações, por encargo oficial (Real).


Sabe-se que os franciscanos eram seguidores, ou simpatizantes, de uma teoria resultante da interpretação da Bíblia apresentada por Joaquim de Fiore, um monge Italiano nascido em Celico, em 1130, que teve um grande sucesso entre os nobres, espalhando-se rapidamente pela Europa.


Nesta interpretação a natureza humana é vista como seguindo um processo evolutivo que a conduz, através de três fases, de uma dependência moral total (a fase do Pai, com ensinamentos rigorosos sobre o Mundo), a uma maior autonomia (a fase do Filho, quando o homem é responsabilizado pelos seus actos) e finalmente a fase do Espírito Santo, a última, na qual o homem é visto como possuindo a capacidade de se relacionar directamente com o Sagrado e cuidar da sua própria salvação.


Esta visão da natureza humana, na qual o homem assume a total autonomia moral, pressupõe um estado de igualdade entre os outros, pois todos são igualmente responsáveis. O Culto do Espírito Santo baseia-se nesse princípio, divulgando-o através dos seus três valores fundamentais (inscritos nos estatutos de todas as Irmandades Açorianas) a Fraternidade, a Igualdade e a Caridade.


O ideal de Fiore, do século XIII, foi materializado e divulgado através de rituais que já se realizavam há uns três ou quatro mil anos, nas sociedades agrícolas Europeias. Eram rituais que também se dirigiam a um Espírito superior, o Espírito da Vegetação, manifestando-se pela sacralização de um vocabulário alimentar, comum a toda a Europa, simbolizado na partilha e ingestão ritualizada de determinados alimentos, nomeadamente: cereais, vinho e carne, sendo cada um deles o símbolo de uma caracterização desse Espírito: Deméter, Diana e Dionísio, os três deuses ligados à vegetação (Dionísio, cujo símbolo principal é o vinho, é por vezes também representado pelo touro), elemento sagrado desde sempre.


Em Portugal Continental ainda se pratica o rito da morte de um touro embebido em vinho, em memória de Dionísio.


A oferta de “primícias”, ou primeiros frutos e animais, aos deuses, sendo uma das formas que o Culto privilegia, é também reminiscência de um modelo de “contrato” com a divindade, que garantia o usufruto dos bens (pertencentes à Mãe Terra), sem temor de sofrer represálias.


No modelo Açoriano, não só esta parte mais antiga dos rituais é ainda bem visível, apresentando-se em grande dimensão (através das crenças relacionadas com o Bezerro do Espírito Santo, por exemplo), como também as intenções que se lhe seguiram e que lhe foram sendo sobrepostas mantém as simbologias próprias de cada época.


As cenas mais características do Culto, no modelo Açoriano, focalizam-se sobre dois pontos culminantes do tempo de sete dias de duração de cada ‘Festa’: (1) a Refeição Cerimonial e (2) a ‘Coroação’.


A Refeição Cerimonial terá por origem, quer a tradição das festas agrárias Europeias, já referidas, quer os ideais de igualdade de Fiore.


Quanto à Coroação, esta parece resultar de uma proposta apresentada pelos Reis de Portugal, Isabel e Diniz (século XIII), ao retirarem da sua cabeça a coroa real e com ela coroarem um pobre, num gesto simbólico, que terá tido lugar na Igreja de Alenquer, numa cerimónia oficial, na qual é instituído o modelo do Culto que passou a ser designado ’Imperial’, e que é geralmente considerado como o percursor do Culto Açoriano.
São estas duas grandes áreas temporais que o Culto do Espírito Santo preservou e evidencia nos Açores (e Comunidades de Emigrantes), por terem marcado as primeiras vivências no Arquipélago, permitindo a identificação e integração.


Antonieta Costa