Cavalhadas

Incluído nas Festas de S. João Baptista, o ritual das “Cavalhadas” é mais um dos muitos rituais relativos ao Solstício de Verão ainda activos no séc. XXI. Segundo Ernesto Veiga de Oliveira, este tipo de celebração é mais restrito a Portugal, e ainda tem lugar na Ilha de S. Miguel, embora no passado fosse muito comum no continente português.
Diz Veiga de Oliveira que:
“O costume, que compreendia geralmente escaramuças festivas, em ruidosos jogos de canas, simulados torneios, documenta-se já em diplomas do século XV, um dos quais, referido à Vila de Óbidos, o menciona como ‘uma postura antiga, que se fez em louvor de S. João Batista’. Eis aí como se descreve a cavalgada em questão: no dia de S. João, todos, antes de ser manhã, cavalgam e se vão à porta do juiz, e com a bandeira da vila andam por ela e derredor com toda a festa e escaramuça e canas com muito alvoroço e vão ouvir missa a casa de S. João Batista. E faz-se sempre por este dia um almoço, que se dá aos que cavalgam, à custa do concelho…” (Festividades Cíclicas, p.159)


Cavalhadas de Vila Franca, S. Miguel
Em Portugal continental, o costume parece ter origem nos jogos de Ceres e Silvano, que se caracterizavam por pretensas escaramuças a cavalo. Em Elvas, estas escaramuças levavam à conquista de uma bandeira aos Castelhanos, em Badajoz. Em Chaves chegou mesmo a haver a “Congregação da nobre cavalaria de S. João Baptista”, cujos cavaleiros se encarregavam da organização dos jogos e cortejos, ou deambulações rituais.


Cavalhadas de Vila Franca, S. Miguel
No cortejo de cavaleiros, trajados de capa e volta, e com chapéus de plumas, Oliveira diz que os arreios estavam ornamentados com flores e fitas, e os selins obrigatoriamente cobertos com uma colcha branca. Documentação sobre as proveniências deste ritual aponta para três possíveis origens: a) dramatização da luta entre o Bem e o Mal, sustentada pelos ideais da cavalaria arturiana e romanesca, materializada em torneios e disputas; b) na mesma linha desta, a possibilidade de serem vestígios de primitivos combates simbólicos entre o Verão e o Inverno; c) ou ainda, vestígios do Auto da Mouriscada (com significado semelhante).


Cavalhadas em Angra do Heroísmo


Cavalhadas em Angra do Heroísmo
Em Angra do Heroísmo também se realizavam as Cavalhadas. O ritual aparece descrito num documento sobre as Sanjoaninas, datado de 1611, do qual se transcreve este excerto:

Escolhidos d’entre a nobreza terceirense 28 cavaleiros, 2 para padrinhos ou chefes de ala, 4 guias e 24 para formarem as duas alas, confessavam-se no dia 24 de Junho, e depois deste religioso acto, armavam-se, e montados em garbosos ginetes ricamente ajaezados, dirigiam-se à residência do mordomo, que já também armado e montado, os esperava nos seus patios, empunhando a bandeira de S. João; cada cavaleiro era acompanhado por dois pajens a pé, condutores de lanças, espontões, e mais preparativos para as justas.
Reunidos naquele local, formavam em duas alas à direita e esquerda do mordomo, e aos toques de chamarela seguiam para a sua ermida, levando cada ala na frente o padrinho, e atrás deste os guias ou chefes de quadrilhas. Era a capela no canto extremo da linha oriental da rua de S. João d’Angra, que abria um grande arco de volta inteira para esta rua, e outro igual para a rua da sé, tendo no vértice do ângulo um púlpito, e na sua parede interna de encontro à casa confinante por esta última rua, o altar, onde se celebrava, acima do qual aparecia o nicho do santo naquele dia festejado. O piso desta capela era de sobrado por ela se desenvolver num primeiro andar.
Formada a la direita na rua de S. João e a ala esquerda na rua da Sé, subia para a capela o mordomo, colocava a bandeira no lugar que lhe era destinado da parte do evangelho, e desembainhando a espada tomava a sua cadeira, conservando ali enquanto duravam as cerimónias religiosas. Depois de paramentado o celebrante, vinha ao arco ocidental e aspergia os cavaleiros da ala direita, que recebiam a aspersão com os elmos suspensos no braço, e depois pelo arco setentrional aspergia a ala esuqerda, subindo em seguida ao altar para a celebração da missa. Ao evangelho aparecia no púlpito o orador sagrado, que depois de enaltecer o santo percursor do Cristo, em frases eloquentes abria aos cavaleiors as páginas de ouro da nossa história, estimulando-os para empregarem sempre o seu valor e derramarem o seu sangue pela defesa da pátria, dessa mãe sempre adorada, da religião augusta que professamos, e do rei, que, com o seu ceptro nos guiava em defesa destes dois princípios da civilização.
Ao post-communio, deposta a espada, recebia o mordomo a sagrada fórmula, e partindo em seguida o celebrante para o arco da parte da rua de S. João, ali ministrava o sacramento aos cavaleiros da ala direita, que a dois e dois se aproximavam daquele local, para este sacro-santo fim, o qual se repetia também no arco da banda da rua da Sé, com a ala esuqerda. Foi pois a um destes tão respeitosos actos, que o bispo D. Hieronimo Teixeira, de quem agora nos impende o dever de louvar, com a sua religiosidade, a veneração que tinha por aqueles que em defesa da pátria, que sempre foi fidelíssima, sabiam enristar lanças e brandir espadas pela sua liberdade; que este bispo dizemos, assistiu também montado, com os seus capitulares, tendo pendente do peito a cruz sagrada, emblema da imortalidade, e guia excelsa da glória dos cristãos na guerra.
Finda a missa, retiravam-se os cavaleiros a suas casas, para de tarde, de novo se juntarem, e darem imponente entrada na arena, onde tinham lugar os torneios, e mais exercícios de arma branca, que duravam por diversas tardes; isto enquanto os espanhóis, no tempo do seu domínio, lhes não adicionaram as corridas de touros misturando o que era nobre, e honroso, com o que é rude, e estúpido. Para não cansar mais a atenção do leitor, vamos entrar no fim da história, de que nos arredámos um pouco, deixando a narração das justas e torneios para outra ocasião, assim como a descrição da arena em que os terceirenses as gozavam tão alegre e devotadamente, e eram presenciadas por tantos de nossos irmãos Açorianos, que demandavam a ilha Terceira, só no propósito de as vir admirar.


O relato é facilitado por José Joaquim Pinheiro (1890, Épocas Memoráveis da Ilha Terceira dos Açores), mas referido também por Drummond (Anais da Ilha Terceira, I Vol., p.424) que por seu lado comenta os elogios que Maldonado faz ao facto de o Bispo Hieronimo Teixeira ter instituído em estatuto a participação regular dos capitulares da Sé de Angra nas festas de S. João, assim como o exemplo que deu, participando “montado a cavalo” (sic), nas mesmas.