Carnaval e os Açores

As explicações presentemente encontradas para os comportamentos “carnavalescos” de uma particular data do ano, raramente referem a aproximação da Primavera e os rituais de purificação a ela adstritos. No entanto, entre as populações primitivas da Europa, ritos semelhantes tinham como objectivo a obtenção de um controlo mágico sobre a natureza, expresso em melhores colheitas. Vestígios destes cerimoniais aparecem agora, após a sua cristianização, intercalados entre o Carnaval e a Semana Santa, deixando perceber as formas complementares de outrora. Na colonização dos Açores, grande parte do património imaterial dos seus povoadores foi conservado, permitindo uma leitura actual.


Cortejo de estudantes de Angra
O Carnaval (com todo o seu conjunto de ritos) assim como as cerimónias da Semana Santa, actuam como ritual de passagem, isolando e encerrando o tempo anterior, profano e impuro, do Inverno e da Morte, para facilitarem a entrada num tempo sagrado. Actos simbólicos, como sejam a morte de um “bode expiatório” (Cristo crucificado), a segregação sexual (festas das “amigas”, dos “amigos”, etc.), a crítica social pública (Bailinhos e Danças de Carnaval), para além de outros, surgem como a objectivação de um pensamento social já distante.

O sacrifício do “bode expiatório” (alguém ou alguma coisa ou animal, que congregasse os pecados e males feitos pela comunidade durante o ano), tinha por finalidade evitar que esses males “contaminassem” o novo tempo, exercendo alguma influência negativa sobre a vegetação em nascimento.




Cerimónias da Semana Santa em Braga
As forças férteis, tanto animais como vegetais, simbolizadas no Rei (ou alguém importante na sociedade) não deveriam ser comprometidas pelo envelhecimento ou adoecer desta pessoa, pois esse facto poderia fazer perigar a fecundidade geral. Deste modo, exigia-se a sua morte ou substituição, simbolizada (neste caso) por vegetação seca junta e moldada num boneco (Rei Momos) que depois é queimado; ou então num burro (tradicional figuração do mal), que é passeado em procissão, como ainda aparece no cortejo de Carnaval dos Estudantes de Angra.


Burro do cortejo de estudantes, 1965(?)
A Igreja Católica preenche este tempo com a solenização do sofrimento e morte de Cristo (assumido no papel do “Bode Expiatório” da humanidade) cujo simbolismo deveria obter fácil entendimento na época. Mas a reparação do mal é também proposta em termos pessoais, por exemplo, pelos jejuns, abstinências e confissão, imposto a cada um. A população da Ilha de S. Miguel propõe as cerimónias de Santo Cristo e a tradicional Peregrinação dos Romeiros: grupos que atravessam a Ilha em caminhadas penosas, por intenção da população.


Danças e Bailinhos da Terceira (fotos Câmara da Praia da Vitória)
Estas funções são ainda muito óbvias num tipo de cerimónia que tem lugar na Ilha Terceira. Com uma duração de quatro dias consecutivos, as “Danças e Bailinhos de Carnaval” são peças teatrais, cantadas e dançadas, cujo conteúdo (original em cada ano) revê e critica a vida social do ano passado, em actos simultaneamente simples e importantes, que são aplaudidos ou condenados, de acordo com os valores e normas estabelecidos. Basicamente, esta manifestação é executada em diferentes estilos: satírico, dramático/moralista e mítico. Cada Freguesia ou local apresenta uma ou mais peças, num total de, em média, 60, que giram pela Ilha apresentando-se nos palcos de pequenas sociedades, onde as pessoas se juntam para o efeito. De Sábado até à madrugada da Quarta-feira de Cinzas, num horário quase ininterrupto de mais de dezasseis horas por dia, dá-se esta transferência de críticas, contidas em fórmulas implícitas e explícitas, cujo efeito pode ser equiparado ao da “purificação” das infracções cometidas durante o ano. Diferentes manifestações, embora coincidentes nos objectivos, podem ver-se nas restantes ilhas.


Traje típico (Ilha de Santa Maria) que passou a caracterizar “As Velhas”
A obscenidade tinha um papel activo na fase final da participação humana. Tendo por finalidade provocar a excitação de Zeus e fazer cair a chuva (o seu sémen) sobre as plantações, para acelerar a sua germinação, fundamentava-se numa ligação ao erotismo. Cabia às mulheres Gregas pronunciarem obscenidades enquanto se desnudavam nos campos, em formas de lascívia que o Carnaval Brasileiro parece ter captado.

O erotismo seguia-se ao tempo de segregação, com o intuito de potenciar a energia sexual humana. A fase de permissividade sexual (também comum no Carnaval), destinava-se a influenciar (através da magia imitativa) a germinação e a produtividade das plantações.


Carnaval Brasileiro
Tanto estas performances eróticas como as outras três categorias ritualistas, da abstinência alimentar e sexual, e do sacrifício corporal, personificado no Rei Momo, formam um conjunto de rituais cujo propósito era o de criar um estado de purificação do espírito. Acreditava-se que este facilitaria o estabelecer de uma barreira entre o tempo profano do Inverno (simbolizado pela morte da Terra) e o tempo sagrado da semeadura e nascimento das plantas (simbolizado pela Primavera), permitindo assim que as pessoas pudessem a ele dedicar-se, certas de obterem sucesso.