Culto dos Mortos

O Culto dos Mortos foi a base sobre a qual foram sendo sobrepostas crenças, credos e religiões, incluindo a católica Cristã, como num "conglomerado", onde as novas fórmulas não substituem as anteriores, mas encontrando sínteses, coalescem nelas.

Reportório das Ilhas Orkney
É devido a essa natureza cumulativa da religião que é possível descobrir vestígios dos vários passados "pagãos", sedimentados em práticas assimiladas a novas crenças.

Reportório das Ilhas Orkney
O Culto dos Antepassados era uma prática comum em toda a Europa, Egipto e Médio Oriente.
Os Egípcios pensavam que os mortos continuavam interessados na vida dos seus familiares, podendo proporcionar-lhes tanto o bem como o mal, doenças e azares tanto quanto sorte e felicidade.

Esculpturas religiosas séc. XVI , Angra, Terceira
Um estudo de Amir Kamal, da Universidade de Liverpool, sobre o teor das cartas endereçadas pelos Egípcios aos seus mortos revela esta crença, que se prolonga por milhares de anos, em vários reinados e dinastias, até que, no último período, as cartas passam a ser endereçadas directamente aos deuses.

Anubis, Deus Egípcio dos Mortos, seu guia e amigo, representado com cabeça de cão
Características semelhantes parecem ter as inscrições em aras, estelas e outros monumentos tumulares, assim como nas placas que acompanhavam os mortos dentro do túmulo, no território Português e Espanhol, ou na antiga Lusitânia.

Lampadário funerário, (Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa)
Ao proceder-se à heroização dos mortos estes eram apresentados ao lado de deuses, como Diana, Júpiter, etc.

Triptolemus (um mortal) entre Persephone and Demeter
Leite de Vasconcelos diz:
" os mortos podem voltar ao mundo dos vivos para diferentes fins, como fazerem certas recomendações a estes, atraírem-nos a si, ou vingarem ofensas, devidas especialmente à falta de veneração para com eles - privação de sepultura, não observação do ritual, etc. Por isso o medo dos mortos é facto muito vulgar nos diversos povos, os quais sempre se têm esforçado por os honrar e os aplacar por diferente meios: erecção de túmulos, oferendas, sacrifícios, responsos, exéquias, festins, etc.
Mas os mortos deificados podem ainda receber culto a fim de valerem aos vivos, e de os ajudarem." (Vol. I, p.201)

Na Península Ibérica, as crenças relativas ao local para onde se pensava que iam os mortos, inscritas nas pedras tumulares mais antigas, parecem indicar que estes ascendiam aos céus. A Lua, o Sol ou outras estrelas seriam o destino da viagem do morto, depois de passar as "portas para o outro mundo".

Estelas encontradas em território Portugues (Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa)
Uma profusão de símbolos astrolátricos aparece em inscrições tumulares, indicando a vitalidade da crença. Acompanham-nas símbolos vegetais (plantas e flores) e zoológicos (usualmente de animais sacrificiais).

Estela e pedra tumular, (Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa)
A crença na santidade dos mortos reflecte-se nos cuidados tidos com a sua sepultura. Para os mais pobres, ou para os solitários, sem parentes, foram mesmo criadas Confrarias ou Irmandades que se encarregavam dos rituais funerários, na inexistência de parentes da vítima.

Várias celebrações actuais tiveram origem neste culto. Delas iremos tratar algumas das mais significativas:
1. O Pão por Deus
2. O S. Martinho
3. A Matança