Cultos Agrários

As mitologias Indo-Europeias do passado, do tempo em que teve início o processo de sedentarização entre os humanos, que se viram forçados a confiar em novos processos de sobrevivência, particularmente os relacionados com a agricultura, funcionam como arquétipos, acordando memórias que embora pertençam à humanidade num todo, também adquirem particularidades culturais.

Ofertas à Deusa Mãe, c 2000 aC.
Estas respostas, comuns a enormes áreas, devido à expansão do Mundo Ocidental, ainda funcionam como unidades unificadoras que conseguem quebrar as mais recentes diferenças estabelecidas sob a égide nacionalista.

Deus da Floresta, Terracota, 2000 aC, Mesopotâmia
As festividades do Solstício de Verão, por exemplo, retractam a sacralidade atribuída à vegetação, baseada em memórias provenientes das mitologias asiáticas, agrícolas.

Arnold Böcklin,. The Sacred Wood, 1882, Kunstmuseum Basileia
Estas mitologias ainda são reproduzidas, especialmente nos actuais espaços rurais, onde é encenada a transferência da sua sacralidade, passando-a dos bosques ao espaço urbano, por mediação de Diana (e também de Dionísio), deuses da vegetação.


Sacrifício a Diana, mármore, Villazzano
O ritual, acontecendo durante o Solstício do Verão, é tradicionalmente representado pela rapariga mais bonita da cidade, actuando no papel de Diana.


Cortejo da “Rainha”, Irlanda
O acto é desempenhado na forma de procissão ou parada, com a Rainha num trono, imitando a antiga cerimónia Europeia da transferência da sacralidade dos bosques para o ambiente citadino, através da figura de Diana, actuando como purificadora do meio urbano.


Sanjoaninas, Cortejo da “Rainha”, Terceira, 2004
Verdes festões decorados de flores invadem a cidade simbolizando as bênçãos.


Colecção de postais de Bárbara Irwin, Califórnia, 1900s
Através deles e com eles, dançarinos executam intrincados passos diante de enorme assistência.


Sanjoaninas 2004, Terceira, Açores

Dança do Solstício de Verão, Suécia, Anders Zorn, 1897
Fogueiras pretendem restaurar a energia ao Sol, que começará a declinar nessa noite do Solstício. Magias funcionam num clima de cumplicidade.


Fogueiras rituais do Solstício, Finlândia
O touro, animal tido como sagrado em várias culturas e um dos símbolos de Dionísio, (também deus da vegetação), toma parte em inúmeros e diversificados eventos durante as festividades do Solstício de Verão.


Nicolas Poussin, A adoração do Bezerro de Ouro, National Gallery, Londres, 1633

Touro sagrado Egípcio

Tourada na Terceira
O ritual das Sanjoaninas, tal como outros eventos semelhantes, acontecendo no meio do Atlântico, tão longe do seu ponto de origem, parece responder a esse apelo do passado, onde celebrações semelhantes foram entendidas como tão relevantes, em termos de sobrevivência das populações.


Espera de gado para crianças, Terceira, 2004
Devido ao potente efeito centrifugo, comum às mitologias agrárias, a noção de circularidade do tempo, característica deste modo de pensar e do ambiente rural, devido à imposição da natureza repetitiva dos eventos, traz consigo a confortável garantia do retorno.

Cenas da vida rural nos Açores
Este sentimento contrasta com a visão linear, geralmente dominante da vida citadina, que tende a causar uma certa ansiedade em relação ao futuro (imprevisível), e que pode resultar em sentimentos depressivos.


Como palco para outras entranhadas cerimónias mitológicas, que seguem as datas dos Equinócios e Solstícios, que conseguem impor a sua ordem nas cidades, Angra é periodicamente invadida por estas místicas, reanimada pelos antigos rituais saídos do calendário cósmico.

Por exemplo, no Equinócio de Outono, o seu centro histórico é atravessado por multidões de peregrinos, provenientes das partes Este e Sul da Ilha (assim como da própria cidade) dirigindo-se para a Serreta, uma pequena freguesia a 20Km a Oeste de Angra, na mesma data e circunstâncias da celebração dos Mistérios Eleusianos, numa parcialmente cristianizada versão do evento Grego.

Hestia e Demeter
Cerimónias do Culto dos Mortos (no 1º de Novembro, como na tradição Celta), integradas no período relativo ao Solstício de Inverno, ocorrem na cidade (assim como no meio rural), enchendo-a de crianças batendo às portas e pedindo “Pão-por-Deus”, cujos bolos (caspiadas) ainda são feitos, mas que engloba também outros donativos (moedas, na tradição de ajudar o morto a atravessar o rio).

Phineus e as Harpias, enviadas por Demeter em busca de Perséfona
A Quaresma e a Semana da Paixão, precedendo a Equinócio de Primavera, são enriquecidos com outros eventos simbólicos, enquadrados pelos rituais agrários de preparação para o período sagrado das sementeiras, como sejam o Carnaval, que na Ilha Terceira (incluindo Angra) tomam um aspecto particular que coloca em relevo a análise social e culpabilização pública dos “pecadores”, em peças satíricas onde a ironia atinge o seu máximo.


Bailinhos de Carnaval, Terceira
Esta ocasião é caracterizada por quatro dias de constante correria, procurando os 50 a 60 novas peças, criadas em cada ano, tanto nas freguesias quanto nas cidades, dispersando e comentado as críticas, que podem ser dirigidas ao Governo, à Igreja, a particulares, etc., mas nas quais a ironia predomina. Por outro lado, os “Maios”, surpreendem de outro modo.



Em cada manhã de 1º de Maio, toda a Ilha Terceira acorda para um cenário de centenas de bonecos, imitando seres humanos, à varanda e/ou janelas das casas, como exorcismo contra a influência dos maus espíritos que na noite de 30 de Abril abandonam a Terra.

Mas entre as mais impressionantes celebrações de carácter rural, afectando todo o Arquipélago e integrando-se na sua matriz cultural, estão as Primitiae, ou Primícias, representadas na versão cristianizada, como Festas do Espírito Santo.


Estas celebrações em particular, que se prolongam pelo tempo do Solstício de Verão, estabeleceram-se como imagem identitária do Açoriano. Uma sua representação nas Sanjoaninas, apresenta a refeição comunal, na qual as mesas são colocadas nas ruas, sentando milhares de comensais para um almoço fraterno e gratuito.

Almoço do Espírito Santo, Terceira, 2004


September, 2004
Antonieta Costa


Bibliografia relacionada
Frazer, James George, “Le Cycle du Rameau d’Or”, in Le Dieu qui Meurt, Paris, 1931
Gennep, Arnold van, Manuel de Folklore Français Contemporain, Paris, 1947
Lévy-Strauss, Claude, Myth and Meaning, Schocken Books, New York, 1945/1995.