O Cosmos e a Humanidade

A Arqueologia e a História demonstraram que o homem primitivo percebia as influências invisíveis, provenientes dos céus como determinantes para a sua sobrevivência. Em resposta a essas forças e com a intenção de com elas interagir, ele criou o “Calendário Cósmico”, um grupo de cerimónias distribuídas ao longo do ano agrário.


Utilizando mito e ritual, este homem primitivo manifesta uma atitude proactiva face à tarefa ciclópica que se propôs, de utilização e controlo de tais fenómenos, assim como de participação no cosmos, em toda a sua plenitude. Esta é uma atitude surpreendente, considerando a ausência de meios de que dispunha então.


“Caduceu” vaso Babilónico do Altar de Asclepius
Observando o imenso trabalho arquitectural do passado, como sejam as Piramides, Stonehenge, desenhos nos campos da América do Sul só visíveis dos céus, como os de Chaco Pueblo e muitos outros, é possível compreender a grande capacidade perceptiva relativa ao Cosmos e às influências dele recebidas.


Em comparação com o homem contemporâneo, especialmente o ocidental, percebe-se o desvio acontecido na linha do conhecimento.

Embora este fenómeno possa parecer comum a muitas culturas do Hemisfério Norte, o sistema de crenças daí resultante, específico da Europa, está a perder-se devido ao paradigma de pensamento instalado com a revolução industrial.
Devido à manutenção (por um período mais longo) das práticas da agricultura tradicional nos Açores, assim como da cultura delas resultante (emigrada para aí há umas centenas de anos, com os colonizadores) muitas dessas práticas e/ou festividades ainda se mantém, podendo ser vistas.
Talvez devido ao seu isolamento, os Açores não foram tão afectados pela drástica destruição da lógica do seu sistema de crenças, como aconteceu por toda a Europa, como resultado combinado entre a Inquisição Católica e a moda racional da revolução industrial. Na verdade, o primitivo sistema de crenças ainda lá está, nos Açores, como um substrato, contido em mitos, estórias e lendas, assim como nos rituais, religião e muitas das festividades agrárias tradicionais, que de modo muito frequente, povoam o Calendário Cósmico.
As premissas que sustentam este sistema de crenças estão enraizadas na atitude assumida pelo homem arcaico, de acreditar ser capaz de estabelecer uma interferência directa nessas forças, de uma forma que ainda é um mistério para nós, hoje em dia. Não obstante a falta de meios, o homem primitivo tinha um vasto conhecimento de Astronomia. Em resultado, concebia as relações entre o Planeta Terra e o Sol, ou outros corpos celestiais, quer como interferindo no seu próprio corpo, quer dependendo das actividades humanas e mesmo de actos individuais.
Neste contexto, ele elaborou rituais e actos mágicos através dos quais pretendia estabelecer algum controlo sobre essas forças. No seu pensamento, a Terra poderia sofrer grandes danos em determinadas circunstâncias, se ele omitisse a execução destes actos cultuais. A força desta crença era tal que permaneceu até hoje, podendo ser observada em muitas performances culturais, ou no impulso que lhes dá razão de ser (sendo esta, aparentemente, a única explicação para a sua preservação).