Equinócio de Outono

Agosto apresenta-se como o prenúncio dos temores do Inverno. Os rituais dominantes são dirigidos a divindades femininas, devido à ligação desta com a esperança de retorno da vida à Terra, após a morte desta. Mas estão também relacionados com a água, (mar ou rios), quer na busca de cura para males, contra pragas de insectos disseminados pelo tempo quente do Verão e doenças várias, quer no uso desta para magia imitativa, estabelecendo a fronteira com a nova simbologia do tempo que se aproxima: o Inverno e a Morte.


S. Bartolomeu, Esposende, Portugal “banhos sagrados” (fotos E. Veiga de Oliveira)
A mística da água permite, pela magia imitativa, estabelecer esta fronteira com a nova simbologia do próximo tempo: o Inverno e a Morte.

Festas de Agosto, Praia da Vitória, Terceira
Em St. Maria, Pico, Terceira e Faial é possível presenciar os eventos que têm lugar junto ao mar, no mês de Agosto, denominados “Semanas do Mar”. No passado seriam procissões, com gente e imagens dos santos passando em botes (seguindo o mesmo calendário).

Praia da Vitória, Terceira


O Outono avizinha o período da morte da natureza. Segundo os ‘Mistérios Eleusianos’, no Hino a Demeter (Deusa Grega dos cereais) deixado por Homero, Setembro é o mês em que se revê a lenda do desaparecimento de Perséfona, sua filha, raptada por Plutão, Senhor dos Mortos.

Rapto de Perséfona, Fresco do Clássico Grego, s.IV aC, Museu Vergina, Grécia
Demeter procura-a durante anos, enquanto a vegetação morre e desaparece da Terra. Vendo isto, Zeus negoceia com Plutão o resgate de Perséfona, conseguindo que esta passe dois terços do ano com a mãe em alternância a um com ele. Denunciando a presença do mito feminino, a percentagem dos rituais (agora católicos) é superior em mais de 50% aos de inspiração masculina, na mesma época do ano.

Venus arcaica (Turquia); La Paloma Blanca (Andaluzia, Espanha);Virgem e Menino, Museu da Horta, Faial
O grande mito Grego que retracta a morte e ressurreição, na metáfora de Perséfona, enquadra-se na concepção oriental generalizada da necessidade da morte anual de uma divindade ligada à vegetação, como medida preventiva, para que esta renasça na Primavera seguinte. Era comummente aceite a ideia de que rituais semelhantes, praticados tanto na Primavera (sementeiras) como no Outono (colheitas), contribuíam para o crescimento e fortalecimento dos cereais e outras plantas.

Mitra com as estrelas sob a capa. Fresco do Templo de Marino, Itália. E a estátua de Mitra encontrada em Mértola (Lusitânia)
Substitutos dos deuses, simbolizados na forma de animais ou de alimentos representativos, eram ingeridos em refeições cerimoniais, propiciatórias desta fertilidade.

Por outro lado, estes rituais têm o poder de reconciliar o homem com a morte, enfatizando possibilidade da existência de vida após esta. Toda a mística outonal aparece expressa nos Açores, num tipo de entendimento que se reflecte ainda fortemente nas características da religiosidade que perdurou após a cristianização de tais crenças.

Deusa Cibele, Museu Nacional de Arqueologia, Portugal
Não só o sentido implícito em cada uma das correspondentes festividades manteve a linha original, como ainda essa linha acabou por influenciar fortemente o calendário das celebrações religiosas. Isto mesmo é possível observar submetendo as celebrações religiosas das respectivas épocas a uma estatística sumária: a totalidade de festividades de invocação feminina, para os meses de Agosto, Setembro e Outubro é de 66, contra 37 de invocação masculina. Utilizando a mesma estatística para os meses de Maio, Junho e Julho (correspondentes ao Solstício de Verão, de cunho masculino), observa-se que as festividades de invocação masculina sobem a 40, enquanto que as de invocação feminina são apenas 22, durante este período.

Romaria à Serreta “Nossa Senhora dos Milagres” (Foto Íris/Foto Açor)
Este facto (em conjunto com outros que têm sido apresentados) vem corroborar a existência de fortes reminiscências arcaicas nas festividades tradicionais dos Açores.


Rituais representativos desta mitologia:

Banhos Sagrados e Culto das Águas
Festividades ligadas ao Mar: Semanas do Mar, em Santa Maria e Faial, Festa dos Baleeiros no Pico, Festas da Praia na Terceira
Peregrinação à Serreta (Terceira)
Festa de Nossa Senhora da Lapinha (Vinha Brava, Terceira)
Festa de Nossa Senhora dos Remédios (Lajes, Terceira)