Ciclos Anuais e Rituais

Em resposta aos efeitos do Sol sobre a Terra as práticas culturais primitivas encontravam-se divididas de modo a incluírem dois tipos principais de rituais e correspondentes objectivos, ambos relacionados com as fases que a Terra atravessa durante o período de um ano.

Cada cultura reage a este fenómeno de modo diferente. A cultura Indo-Europeia, onde se encontram as raízes da cultura Açoriana, mostra padrões que ainda são evidentes neste Arquipélago. Ao abordarmos os actuais rituais e festividades Açorianos, facilmente se nota que eles também apresentam essa divisão de classes e sentidos:

1) No que diz respeito ao Inverno, nota-se que o seu simbolismo ainda está impregnado com o Culto dos Mortos e a intenção de exorcizar o demónio, como será visto depois. Existe igualmente uma procura de constante atenção e cuidado em proteger a Terra dessas forças malignas (que se apresentavam como autênticas ameaças mortais durante as eras glaciares, marcando assim as memórias da humanidade.

“Foliões”, Domingos Rebelo, S. Miguel
Consequentemente, uma grande parte dos actuais rituais está ainda influenciada por esta intenção de libertar a Terra dos espíritos maus que vagueiam durante o Inverno causando doença e morte.

Nesta parte do ano, memórias da esterilidade da Terra durante as eras glaciares, atribuída a estas forças diabólicas, mantém-se visível no sentido dado aos rituais cuja função era a sua expulsão.

O Bezerro do Espírito Santo
Esta expulsão, primeiramente entendida como apenas possível através dos deuses, foi depois tomada como tarefa dos homens (quando purificados) que deveriam não só restaurar a fertilidade da Terra mas também a energia do Sol, através de cerimónias ritualizadas.

Doze Ribeiras, Terceira
2) De acordo com esta lógica, os rituais de Verão apresentam um sentido diferente dos de Inverno. A sua intenção parece ser a de propiciar o bem e a abundância. Ambas as crenças estão tão entranhadas nas performances culturais que a Igreja Católica as assumiu no seu calendário.


Purificação do urbano pela vegetação, Praia da Vitória, Terceira
Analizando a lógica imbuída nestas práticas ritualísticas pode-se concluir que o homem primitivo acreditou na existência desta relação, como uma ligação existente entre o seu corpo e o cosmos, como se ambos fossem um só.
Esta lógica está presente na natureza das cerimónias e magias aplicadas no exorcismo do demónio e na celebração da fertilidade, rituais que têm lugar nos tempos dos Equinócios e Solstícios.


Rituais Equinociais do Espírito Santo, Vila Nova, Terceira
Nos rituais e nas crenças Açorianas aparecem traços deste espírito místico. Dividindo-se em períodos de tempo de três meses cada, caracterizam-se por dois tipos de sentidos, que se subdividem noutros dois, construindo quatro conjuntos de sentidos e categorias constituintes do que aqui é designado como Calendário Cósmico

1) O Culto dos Mortos
2) A invocação do Espírito da Vegetação
3) A celebração da germinação da vegetação
4) A celebração da abundância