Calendário Cósmico

O presente trabalho baseia-se em investigações de antropólogos, sociólogos e folcloristas, tais como Wilhelm Mannhardt, James Frazer, Arnold van Gennep, Wladimir Propp, entre outros. A análise combinada dos seus trabalhos resultou na elaboração do esquema abaixo apresentado, para distribuição das celebrações festivas açorianas que nele se enquadrem:


Esquema das áreas de influência do Sol sobre as Festividades Açorianas
O presente texto é uma sinopse, ou o esqueleto dessa classificação, apontando para os vestígios do passado ainda existentes nestas práticas cerimoniais e que reflectem uma maior ou menor proximidade do Sol (que agora sabemos ser uma concepção errónea), em relação à Terra e ao hemisfério Norte.


Muitas das culturas Europeias da actualidade perderam o sentido original dos seus rituais, criados a partir de práticas e crenças de há 20 ou 30.000 anos. Porém, aqueles que se mantiveram ligados à vida rural, mantiveram memórias desses tempos. A Europa está agora a redescobrir esse património, e os Açores, devido à riqueza etnográfica aí preservada, dele dão testemunho.


Festa do Espírito Santo no Pico
O núcleo da cultura Europeia é marcado por eventos traumáticos causados pela severidade do clima, durante as eras glaciares coincidentes com a fase de sedentarização e que influenciaram as suas práticas simbólicas, dando lugar a um “Calendário Cósmico” que seguia as mudanças da Terra, relacionadas com a influencia de astros como o Sol e a lua.

Os efeitos que estes eventos tiveram na cultura prevaleceram, persistindo até ao presente, embora disfarçados com outros sentidos, devido às proibições Católicas, assim como as adaptações e alterações acontecidas. Por esta razão, só conhecendo o passado ligado a tais eventos, será possível entendê-los, escondidos como estão debaixo das configurações actuais.


Gaia, na figuração da Mãe Terra
A presença deste passado reflecte-se no espírito que preside aos rituais cíclicos Açorianos. Procurando as suas raízes no continente Europeu, entendem-se as duas diferenças de sentido, separando os tempos mais significantes destas culturas: : a) medo e tristeza, nos rituais de expulsão dos demónios do Inverno;


e b) alegria e esperança, na Primavera, acolhendo a vinda do Espírito da Vegetação.


Sandro Boticelli, A Primavera
A permanente mudança de mentalidades forçou as sociedades a abandonarem as crenças relacionadas com essas práticas, resultantes de milhares de anos de experiência e conhecimentos adquiridos. Eram baseadas na observação dos céus, das estrelas e das forças que os controlam, percebidas como “deuses” que influenciam os humanos em toda a sua actividade.


O destino último do universo e a posição da humanidade neste contexto, ditavam os comportamentos, dominando a vida diária de populações inteiras. Foram eles que instituíram o conjunto de eventos inseridos no aqui denominado “Calendário Cósmico”. Não obstante a constante mudança do mundo actual, “Cultura” é ainda o resultado dessas crenças, que nela permanecem como um substrato quase invisível.


Marc Chagall – detalhe de “As três Velas”